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Quando surgem filmes que tomam como protagonistas a figura do zé-ninguém que se tornou famoso por motivos infames, como é aqui o caso, há sempre reacções de protesto por parte de quem defende que tais figuras não merecem qualquer consideração e que deviam ter uma visibilidade inversamente proporcional à dimensão da sua infâmia. Para alguns o ideal era que a história só registasse nos seus anais os feitos dos privilegiados, dos bem-sucedidos e dos vencedores, e jamais daqueles que são vistos como fracos, falhados e perdedores.
Capítulo 27, filme de estreia de J. P. Schaefer, recusa essa visão que pretende “apagar” da memória colectiva aqueles que dela fazem também parte, ainda que pelas piores razões. Mark David Chapman, o assassino de John Lennon (e protagonista deste filme), é uma dessas figuras malditas que importa contudo conhecer, porque a História (nomeadamente a do cinema) também deve lembrar aqueles que naufragaram.
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Capítulo 27 conta a história do assassinato de Lennon do ponto de vista de Chapman (formidável interpretação de Jared Leto, cuja transformação para o papel, que o obrigou a engordar 30 quilos, foi comparada à de Robert De Niro em Touro Enraivecido ou à de Charlize Theron em Monstro), mostrando-nos o que se passou na cabeça deste durante a sua estadia de três dias em Nova Iorque, que culminaria com o assassinato do ex-Beatle na noite de 8 de Dezembro de 1980, à porta do famoso Dakota Building, onde este morava. Na altura com 25 anos, Chapman é aqui retratado como um homem profundamente solitário que passa boa parte do tempo fechado dentro da sua cabeça (e o fim-de-semana quase todo à porta do Dakota), e vive obcecado por The Catcher in the Rye (À Espera no Centeio, na versão portuguesa), o livro de culto de J. D. Salinger com cujo protagonista estabelece uma relação de extrema identificação, chegando ao ponto de sentir que é dele uma encarnação. Qual clérigo malogrado, Chapman traz consigo esse livro como se fora a sua bíblia pessoal, seguindo o exemplo do seu protagonista quase como se este fosse uma figura obscuramente crística.
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O filme não cai, todavia, na tentação fácil de apresentar Chapman como monstro ou figura propriamente diabólica, retratando-o antes como um homem caído num abismo de solidão que o enlouqueceu. Depressa percebemos que se trata sobretudo de alguém que é vítima de todo um conjunto de problemas psicológicos que configuram um provável quadro de esquizofrenia. Importa, portanto, entender que certos traços de personalidade de Chapman, tais como a auto-importância exagerada, a paranóia ou as suas construções delirantes que passam facilmente por mitomania, são do foro patológico. E ainda que nada disto desculpe o seu acto, a verdade é que a figura de Chapman acaba por ser retratada não tanto como um assassino psicopata quanto como um indivíduo perturbado (e com claros problemas relacionais, evidenciados nas cenas em que interage com uma das fãs de Lennon, interpretada por Lindsay Lohan), soterrado debaixo das ruínas circulares da sua mente, perdido no arquipélago de ilhas desertas do seu fragmentado eu que ninguém alcança e que o faz passar ao largo do real, e que encontra no homicídio não só um ínvio caminho de acesso à fama, mas também uma forma paradoxal e peculiar de se suicidar de uma sociedade que deplora na sua corrupção moral e humana. E Lennon acabou, afinal, aos olhos de Chapman, por consubstanciar um exemplo da hipocrisia e da falsidade dessa sociedade na clamorosa contradição que este nele viu entre os valores que apregoava em canções como Imagine e a forma faustosamente burguesa como vivia.
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Schaefer opta por um registo minimalista e obsessivamente centrado nas imediações do Dakota, não só para melhor se poder centrar no essencial, ou seja, o mundo interior do protagonista, mas usando também essa circularidade obsessiva como imagem do seu clima mental. De resto, a opção pela narração na primeira pessoa em off é perfeitamente adequada, funcionando quase como eco dos recorrentes monólogos interiores que atestam a extrema solidão de Chapman. Capítulo 27 mostra-nos o outro lado da tragédia sem pretender psicanalisar ou explicar uma figura que porventura também não se explicava a si mesma.
(Texto originalmente publicado no Diário de Notícias)
Capítulo 27 – O Assassinato de John Lennon(“Chapter 27”)
Realizador: Jarret P. Schaefer
Intérpretes: Jared Leto, Lindsay Lohan, Mark Lindsay Chapman
(EUA/Canadá, 2007)
Editora: Prisvídeo
Classificação: (8/10)