quinta-feira, 26 de Março de 2009

O julgamento moral

Produzido por B.P. Schulberg, Punição (Crime and Punishment, 1935) foi o primeiro filme que Josef von Sternberg fez para a Columbia Pictures, após uma série de títulos rodados com Marlene Dietrich na Paramount. Adaptação do famoso romance de Dostoiévski Crime e Castigo (1866), o filme narra o drama psicológico de Raskolnikov (interpretado por Peter Lorre), um estudante de criminologia recém-formado e muito inteligente que, para libertar a família da pobreza mas também movido por instintos misantropos, rouba e assassina a sua senhoria, uma prestamista idosa a quem devia a renda. Sternberg renegaria o filme por considerá-lo infiel ao espírito do livro, mas apesar de ser deste uma versão muito condensada, Punição tem ainda assim o mérito de traduzir o essencial de uma obra sobre um homem condenado ao inferno da culpa pelo tribunal da sua própria consciência moral.

(Texto originalmente publicado na revista NS do Diário de Notícias)

Punição
(“Crime and Punishment”)
Realizador: Josef von Sternberg
Intérpretes: Peter Lorre, Edward Arnold, Marian Marsh
Editora: Sony Pictures
(EUA, 1935)
Classificação: (7/10)





sábado, 21 de Março de 2009

REVISOR: 'Safe' + 'Poison', de Todd Haynes

A DOENÇA COMO METÁFORA

Edição conjunta de dois filmes de Todd Haynes, donde se destaca “Seguro”, perturbante meditação sobre a solidão da doença

Apesar do tom algo experimental e “iconoclasta” de Veneno, o grande filme desta caixa é Seguro (o mais perturbante de Todd Haynes). Trata-se de um melodrama doméstico sobre uma mulher, Carol White (assombrosamente interpretada por Julianne Moore), que adoece de uma estranha doença que, aparentemente, afecta o seu sistema imunitário e a torna altamente alérgica a todo o tipo de químicos que a rodeiam (desde a poluição urbana até ao simples perfume do marido). Contudo, como lhe diz o médico após um violento ataque que a obriga a ser hospitalizada, nada de errado aparece nos exames.
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Desde cedo fica claro que o mal de Carol é do foro espiritual. E que a origem dos seus problemas está certamente na monotonia das previsíveis rotinas quotidianas e na excessiva “segurança” da sua vida burguesa de dona de casa cujos objectivos parecem limitar-se a trocar de sofás, fazer aeróbica, ir ao cabeleireiro e lanchar com as amigas. A sua vida é luxuosa e pacata, mas triste e estéril. Falta à sua existência um sentido maior que transcenda o tédio que a sua condição de mulher passiva e dependente lhe inspira. O corpo nunca mente, e o de Carol encontra na doença uma forma de avisar que o seu quotidiano supérfluo está a asfixiá-la de angústia. Carol descobre num folheto informativo que é “alérgica ao século XX”, e a sua doença mais não é afinal que uma forte somatização do vazio espiritual da sua vida, reacção a um tempo em que a existência civil se tornou completamente incompatível com a satisfação das exigências espirituais intrínsecas ao ser humano.
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Seguro (1995) é uma meditação sobre a solidão da doença e o facto de esta, por vezes, ser uma via de acesso para um conhecimento mais profundo de nós próprios. Porém, não se pense que Haynes está interessado nos optimismos superficiais de algumas filosofias new age; bem pelo contrário, Seguro é uma crítica feroz às espiritualidades fáceis e aos seus impostores gurus.
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Quanto a Veneno (1991), trata-se de três narrativas diferentes que alternam entre si. A primeira, Hero, é um documentário simulado sobre um menino que mata o pai e sai a voar pela janela. O filme aborda de forma ligeiramente surrealista os temas do complexo de Édipo e do parricídio. Horror, o segundo segmento, e talvez o mais interessante, usa o preto e branco para contar a história de um cientista que descobre o segredo do impulso sexual e acaba vítima da sua descoberta. Há nesta história algo de católico sobre o castigo reservado àqueles que violam os mistérios da criação. Homo, o último do tríptico, é uma homenagem a Jean Genet e encena os jogos de humilhação e dominação implicados no desejo homossexual de um grupo de reclusos. Estes dois DVD incluem ainda como extra Dottie Gets Spanked, curta-metragem de Haynes sobre o fascínio de um menino por uma personagem de uma sitcom.
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(Texto originalmente publicado na edição de 4 de Agosto de 2007 da revista NS)

Seguro + Veneno
("Safe + Poison")
Realizador: Todd Haynes
Editora: Prisvídeo
(EUA, 1995/1991)
Classificação: (10/10)

quinta-feira, 19 de Março de 2009

Natasha Richardson (1963 - 2009)


segunda-feira, 16 de Março de 2009

O homem da mala cheia e da alma vazia

Béla Tarr tem sido referido por Gus Van Sant como o grande mentor da fase mais contemplativa, minimalista e abstracta da sua obra, iniciada em Gerry. E ainda que porventura fruto de feliz coincidência, a verdade é que existe um certo paralelismo entre as histórias de O Homem de Londres e de Paranoid Park, o filme de Van Sant anterior a Milk. Em ambos, os protagonistas ocultam o seu envolvimento na cena de um crime. No caso deste filme baseado num livro de Georges Simenon trata-se de um funcionário de uma estação ferroviária que assiste a um crime e se apodera de uma mala com dinheiro pertencente à vítima, comportando-se como se nada tivesse acontecido. A história é, todavia, o que menos interessa ao cineasta húngaro, mais apostado na criação de uma atmosfera – através de um ritmo lento e obsessivo, planos longos, encenação antinatural e hipnóticos efeitos sonoros – capaz de traduzir o vazio existencial do protagonista deste filme que parece um cruzamento de David Lynch com Andrei Tarkovski.

(Texto originalmente publicado na revista Notícias Sábado)

O Homem de Londres
(“A Man from London”)
Realizador: Béla Tarr
Intérpretes: Miroslav Krobot, Tilda Swinton
(França/Alemanha/Hungria, 2007)
Editora: Zon Lusomundo/Fnac
Classificação: (7/10)





domingo, 15 de Março de 2009

O homem que matou John Lennon

Quando surgem filmes que tomam como protagonistas a figura do zé-ninguém que se tornou famoso por motivos infames, como é aqui o caso, há sempre reacções de protesto por parte de quem defende que tais figuras não merecem qualquer consideração e que deviam ter uma visibilidade inversamente proporcional à dimensão da sua infâmia. Para alguns o ideal era que a história só registasse nos seus anais os feitos dos privilegiados, dos bem-sucedidos e dos vencedores, e jamais daqueles que são vistos como fracos, falhados e perdedores. Capítulo 27, filme de estreia de J. P. Schaefer, recusa essa visão que pretende “apagar” da memória colectiva aqueles que dela fazem também parte, ainda que pelas piores razões. Mark David Chapman, o assassino de John Lennon (e protagonista deste filme), é uma dessas figuras malditas que importa contudo conhecer, porque a História (nomeadamente a do cinema) também deve lembrar aqueles que naufragaram.
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Capítulo 27 conta a história do assassinato de Lennon do ponto de vista de Chapman (formidável interpretação de Jared Leto, cuja transformação para o papel, que o obrigou a engordar 30 quilos, foi comparada à de Robert De Niro em Touro Enraivecido ou à de Charlize Theron em Monstro), mostrando-nos o que se passou na cabeça deste durante a sua estadia de três dias em Nova Iorque, que culminaria com o assassinato do ex-Beatle na noite de 8 de Dezembro de 1980, à porta do famoso Dakota Building, onde este morava. Na altura com 25 anos, Chapman é aqui retratado como um homem profundamente solitário que passa boa parte do tempo fechado dentro da sua cabeça (e o fim-de-semana quase todo à porta do Dakota), e vive obcecado por The Catcher in the Rye (À Espera no Centeio, na versão portuguesa), o livro de culto de J. D. Salinger com cujo protagonista estabelece uma relação de extrema identificação, chegando ao ponto de sentir que é dele uma encarnação. Qual clérigo malogrado, Chapman traz consigo esse livro como se fora a sua bíblia pessoal, seguindo o exemplo do seu protagonista quase como se este fosse uma figura obscuramente crística.
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O filme não cai, todavia, na tentação fácil de apresentar Chapman como monstro ou figura propriamente diabólica, retratando-o antes como um homem caído num abismo de solidão que o enlouqueceu. Depressa percebemos que se trata sobretudo de alguém que é vítima de todo um conjunto de problemas psicológicos que configuram um provável quadro de esquizofrenia. Importa, portanto, entender que certos traços de personalidade de Chapman, tais como a auto-importância exagerada, a paranóia ou as suas construções delirantes que passam facilmente por mitomania, são do foro patológico. E ainda que nada disto desculpe o seu acto, a verdade é que a figura de Chapman acaba por ser retratada não tanto como um assassino psicopata quanto como um indivíduo perturbado (e com claros problemas relacionais, evidenciados nas cenas em que interage com uma das fãs de Lennon, interpretada por Lindsay Lohan), soterrado debaixo das ruínas circulares da sua mente, perdido no arquipélago de ilhas desertas do seu fragmentado eu que ninguém alcança e que o faz passar ao largo do real, e que encontra no homicídio não só um ínvio caminho de acesso à fama, mas também uma forma paradoxal e peculiar de se suicidar de uma sociedade que deplora na sua corrupção moral e humana. E Lennon acabou, afinal, aos olhos de Chapman, por consubstanciar um exemplo da hipocrisia e da falsidade dessa sociedade na clamorosa contradição que este nele viu entre os valores que apregoava em canções como Imagine e a forma faustosamente burguesa como vivia.
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Schaefer opta por um registo minimalista e obsessivamente centrado nas imediações do Dakota, não só para melhor se poder centrar no essencial, ou seja, o mundo interior do protagonista, mas usando também essa circularidade obsessiva como imagem do seu clima mental. De resto, a opção pela narração na primeira pessoa em off é perfeitamente adequada, funcionando quase como eco dos recorrentes monólogos interiores que atestam a extrema solidão de Chapman. Capítulo 27 mostra-nos o outro lado da tragédia sem pretender psicanalisar ou explicar uma figura que porventura também não se explicava a si mesma.
(Texto originalmente publicado no Diário de Notícias)


Capítulo 27 – O Assassinato de John Lennon
(“Chapter 27”)
Realizador: Jarret P. Schaefer
Intérpretes: Jared Leto, Lindsay Lohan, Mark Lindsay Chapman
(EUA/Canadá, 2007)
Editora: Prisvídeo
Classificação: (8/10)



quinta-feira, 12 de Março de 2009

Tão perto, tão longe...

Filme anterior ao aclamado O Segredo de um Cuscuz, A Esquiva (2003), do realizador de origem tunisina Abdellatif Kechiche, foi o grande vencedor da edição de 2005 dos Césares. Ambientado num bairro dos subúrbios de Paris, maioritariamente habitado por emigrantes do Norte de África, o filme conta-nos a história de Krimo (Osman Elkharraz), um adolescente tímido, inexpressivo e pouco articulado que, apesar da sua falta de jeito para representar qualquer papel, decide participar na peça de Pierre Marivaux que a sua turma ensaia com o intuito de se aproximar de Lydia (Sara Forestier), uma colega e amiga de infância por quem está apaixonado, mas que se mostra evasiva face aos seus inseguros avanços. Filmado em vídeo digital num estilo quase documental, A Esquiva é um retrato realista do mundo adolescente com interpretações cujo impressionante verismo só tem paralelo num filme como A Turma, de Laurent Cantet. Edição sem extras.
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(Texto originalmente publicado no suplemento IN da revista Notícias Sábado)

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A Esquiva (“L’Esquive”)
Realizador: Abdellatif Kechiche
Intérpretes: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Ouazani, Carole Franck
(França, 2003)
Editora: Atalanta Filmes
Classificação: (9/10)

sábado, 7 de Março de 2009

Quatro contos morais

RO.GO.PA.G (1963), título de um projecto que reúne quatro curtas-metragens de outros tantos cineastas que narram “o alegre princípio do fim do mundo”, é o agregado das letras iniciais dos seus apelidos: Roberto (Ro)ssellini, Jean-Luc (Go)dard, Pier Paolo (Pa)solini e Ugo (G)regoretti. Rossellini abre o conjunto com Castidade, sobre uma tímida hospedeira que, assediada por um maníaco sexual com o complexo de Édipo que se sente atraído pela sua candura, é aconselhada por um especialista em psicologia criminal a dar-se ares mais lascivos para o afastar. Em O Requeijão, Pasolini põe Orson Welles, no papel de um sobranceiro realizador, a recitar um poema seu numa história em torno da rodagem de um filme sobre a Paixão de Cristo e de um figurante sofredor que passa fome e acaba por morrer na “cruz”. Ugo Gregoretti, o menos conhecido do quarteto, realiza em O Frango de Ar Livre um delicioso conto sobre o condicionamento psicológico do homem moderno pela ideologia consumista, sugerindo que somos todos “frangos de aviário”! Intitulado O Novo Mundo, o segmento de Godard, porventura o menos cativante dos quatro, conta a história de um homem que sente uma mudança no seu mundo depois de uma explosão atómica que peritos garantem inócua.
(Texto originalmente publicado no suplemento IN da revista Notícias Sábado)
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RO.GO.PA.G (“RO.GO.PA.G”)
Realizadores: Roberto Rossellini; Jean-Luc Godard; Pier Paolo Pasolini; Ugo Gregoretti
(Itália/França, 1963)
Editora: Costa do Castelo
Classificação: (7/10)

sexta-feira, 6 de Março de 2009

Espelho meu, haverá cineasta tão bom como eu?

Richard LaGravenese e Ted Demme (este último já falecido) realizaram em 2003 para o Independent Film Channel este documentário que celebra os anos dourados vividos pelo cinema americano na década de 70, época em que uma nova geração de cineastas, influenciados por autores estrangeiros e uma cinefilia nascida amiúde em contexto universitário, mudaram a face de Hollywood com uma série de filmes imbuídos de um espírito de contracultura que rejeitava as fórmulas caducas dos grandes estúdios, e que buscava um novo público ávido de histórias que reflectissem as suas próprias experiências. Entrevistando muitos dos protagonistas dessa revolução cinematográfica (entre tantos outros, contam-se nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Robert Altman, Peter Bogdanovich, William Friedkin ou Sydney Pollack, aliás nunca identificados em oráculo), e mostrando excertos de alguns dos filmes referidos, O Cinema Americano dos Anos 70 – Uma Década em Revolução peca todavia por uma overdose de informação tratada de forma algo anárquica (e num registo demasiado televisivo), bem como por uma abordagem excessivamente reverencial e um clima de auto-elogio traduzido por um irritante discurso do estilo “éramos tão rebeldes, tão revolucionários e tão geniais!” .
(Texto originalmente publicado na revista Notícias Sábado)
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Uma Década em Revolução ("A Decade Under the Influence - The 70's Films That Changed Everything")
Realizadores: Richard LaGravenese & Ted Demme
Género: Documentário
(EUA, 2003)
Editora: Midas Filmes
Classificação (5/10)

Os infernos de um lazarone

Pier Paolo Pasolini definiu Accattone (1961), que assinalou a sua estreia na realização adaptando o seu próprio romance Una Vita Violenta (1959), como um filme “fundamentalmente religioso, católico mesmo”. O anti-herói desta “tragédia subproletária” ambientada nos bairros pobres dos arredores de Roma é Vittorio Cataldi (Franco Citti), conhecido por Accattone, um proxeneta ocioso, imaturo e impulsivo que vive à custa de Maddalena (Silvana Corsini), mulher que explora obrigando-a a prostituir-se. Mas quando Maddalena é presa por perjúrio, Accattone vê-se a braços com a mais extrema miséria, perfilando-se Stella (Franca Pasut), uma jovem mulher cândida e trabalhadora, como a sua tábua de salvação. Trabalhando com actores não-profissionais e retratando de forma nua e crua a “raça subproletária” a que pertence o protagonista, Pasolini revela invulgar segurança nos seus primeiros passos como cineasta, recusando arvorar-se em juiz moral de uma personagem a quem, embora incorrendo naquele que é talvez o pecado dos pecados (a preguiça), é negada toda a possibilidade de redenção por uma espécie de anátema que a relega para uma condição de não-inscrição no jogo da salvação.
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(Texto originalmente publicado no suplemento IN da revista Notícias Sábado)
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Accattone (“Accattone”)
Realizador: Pier Paolo Pasolini
Intérpretes: Franco Citti, Franca Pasut, Silvana Corsini
(Itália, 1961)
Editora: Costa do Castelo

Classificação: (8/10)

Uma tragédia edipiana dos tempos modernos

Desejos Selvagens (acaba de ser editado em DVD) marca o regresso de Tom Kalin à longa-metragem, 15 anos depois da sua estreia na realização com Swoon. Tal como nessa obra, o realizador torna a deter-se num caso verídico de assassínio. Trata-se aqui do caso que envolveu o assassínio de Barbara Daly Baekeland, uma abastada socialite nova-iorquina, pela mão do próprio filho, Antony Baekeland. Inspirado no livro Savage Grace: The True Story of a Doomed Family, escrito em 1985 por Natalie Robins e Steven M. L. Aronson, o filme retrata esse mediático caso de matricídio ocorrido em Londres em 1972.
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De origens modestas, Barbara, uma ex-modelo e candidata a actriz, ascendeu socialmente através do casamento com Brooks Baekeland, neto do inventor da baquelite e membro de uma das mais ricas e poderosas famílias da América. No entanto, o fosso social que havia entre ambos, e sobretudo a personalidade instável e depressiva de Barbara, acabariam por destruir um casamento cuja desintegração foi ainda mais agravada pela rejeição que Brooks revelara em relação ao filho quando se tornou evidente que este era homossexual.
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Abandonada pelo marido, que entretanto a trocara por uma pseudo-namorada de Antony, e incapaz de aceitar a orientação sexual do filho, Barbara tornou-se cada vez mais dependente deste, que sentia como único suporte emocional capaz de preencher o seu profundo vazio afectivo, chegando ao ponto de alegadamente manter com ele uma relação incestuosa na tentativa (sem dúvida utópica e perversa) de o "curar" da sua homossexualidade. Qual anti-édipo perturbado por um conflito arrevesadamente edipiano, Antony (na altura com 25 anos), que segundo consta evidenciava sintomas de esquizofrenia com tendências paranóides (porventura fruto de tão disfuncional dinâmica familiar), acabaria por matar a mãe à facada, sendo em consequência enviado para Broadmoor, um hospital-prisão inglês para criminosos insanos. Libertado em 1980, regressaria a Nova Iorque para viver com a avó, que também esfaquearia (embora a vítima desta vez tenha sobrevivido). Acabou os seus dias na prisão de Rikers Island, onde morreria um ano depois sufocado por um saco de plástico, tudo apontando para a hipótese de suicídio.
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Optando por centrar-se nas cenas-chave do livro, Tom Kalin dá-nos da história um retrato sob a forma de uma espécie de elíptica sequência de vinhetas que nos são apresentadas quase como um conjunto forçosamente lacunar de pistas para uma investigação que conta com a intuição, a dedução e a compreensão do espectador para se completar. Nesse sentido, a acusação de falta de insight sobre as personagens feita por alguma crítica afigura-se-nos algo despropositada, pois não nos parece que fosse intenção do realizador transformar o filme num exercício intrusivamente psicanalítico ou psicologizante. Aliás, há sempre uma certa opacidade nas personagens que acaba por adensar o mistério em torno desta tragédia edipiana dos tempos modernos.
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Julianne Moore, no papel de Barbara, é a grande mais-valia do filme, dando à sua personagem toda uma dimensão neurótica que interpreta todavia de uma forma nunca histriónica. Eddie Redmayne, na sua beleza glaciar, confere a Antony uma aura enigmática e inquietante. Destaque-se ainda a interpretação de Stephen Dillane no papel de um pai ausente e desagradado com um filho que vê como um falhado absoluto. De resto, o ritmo lânguido de Desejos Selvagens (no original Savage Grace, título que parece sugerir que a homossexualidade seria uma espécie de dom indomável) tem qualquer coisa de deletério que joga bem com o clima de morbidez psicológica deste contido melodrama algo emulador do estilo de Todd Haynes.
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(Texto originalmente publicado no Diário de Notícias)
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DESEJOS SELVAGENS ("SAVAGE GRACE")
Realizador: Tom Kalin
Intérpretes: Julianne Moore, Stephen Dillane, Eddie Redmayne, Hugh Dancy
(EUA/Espanha/França, 2007)
Editora: Prisvídeo
Classificação: (8/10)